23 de dez de 2010

Mensagem de Natal Alipiana


Abecedário (anônimo)
Aos belos camaradas de estima franca, gozem hoje infinitos júbilos, limitados medianamente numa obra prodigiosa, quais "restrições" sugeridas, todavia unindo visibilidade, xamego, zelo.

Palavratrix (Movimento Poetrix)
(Fim de Ano)
A
Bar
Car.

Lipograma em "a" (anônimo)
 Quero bem todos os meus discípulos, e fui/sou deles do mesmo modo, todos gênios, geniosos, próximos, que me oferecem muito do que eu dou pouco. Muito feliz em conhecê-los, todos. Gosto-lhes e provo-lhes com estes motes: vocês, quero-os meus "bródis". Feliz Vinte e Cinco.

Jogo onomástico (Oulipo)
Natal
Na tal?
Num tá?
Nat, lá?
Né, Tá?
Notado.

7 de dez de 2010

Relato: "Nosso Cineminha" (por Hugo Leonardo)

Como estudantes de literatura, sempre nos deparávamos com um problema comum: a falta de atrativos e a impossibilidade de criarmos nas aulas. Depois que entramos no ALiPo, a coisa mudou de figura. Com as pesquisas que eram incentivadas pelo nosso orientador, as ideias foram surgindo. A nossa criatividade pôde então pousar e sair do mundinho imaginário onde permaneciam inertes todas as esperanças construtivas de futuros leitores e, por que não dizer, futuros escritores. O estigma da criação impossível terminou por fim. As possibilidades aumentaram. 

Não havíamos nos tornado seres divinamente machadianos, mas percebíamos ali que podíamos galgar alguma manifestação literária. E, melhor, poderíamos propagar isso aos nossos alunos. Com certeza ao olhar deles sobre nós teria uma percepção mais amena. Não mais de raiva, pena, desprezo ou incompreensão sufocante. Quem sabe até, traduzindo o otimismo alipiano, um olhar de admiração, afinal. Não porque seríamos sábios mestres, e sim por afinal perceberem o quanto estávamos dispostos a juntar experiências, a desmistificar as impossibilidades crueis, e lado a lado construirmos um saber alicerçado no prazer de aprender.

O projeto Nosso Cineminha surgiu depois de uma reportagem de TV, onde se via uma aluna sendo vítima de bullying em uma escola. Ela explicava que o fato de a briga com outras estudantes estar sendo filmada era para compartilhar o vídeo com alunos de outra escola. A pobre menina dizia que aquela era prática comum, uma forma de disputa entre as escolas. Os melhores videos de briga intimidavam os alunos da outra escola e criavam uma falsa sensação de poder àqueles jovens cheios de energia e vontade de criar, que era limitado no quadrado cruel e tirânico da nossa educação nacional. Então pensamos (Arcanjo e eu) que, se o apelo visual era para eles tão importante, se poder dizer "eu que fiz!" era crucial para se auto afirmarem num mundo onde se nega a individualidade, a gente tinha achado uma porta por ali. 

Escolhíamos um texto literário com os alunos, discutíamos sobre o autor e interpretávamos o texto. Até ali nada novo, só que a recompensa para eles, e o incentivo para a tarefa que muitas vezes parecem árduas, mudaria de figura quando lhes era dada a possibilidade de criação de um roteiro para vídeo encenando o texto. Para que a produção textual entrasse na jogada foi um passo. Hoje, encurtando a história, o nosso método vem sendo testado com nossos alunos, e a recepção não poderia ser melhor. Eles sentem o prazer de um bom texto, percebem como foi estruturado o texto lido, a descrição das cenas, as características das personagens e dos ambientes; vislumbram possibilidade de escreverem seus próprios textos, seus próprios roteiros, não mais tímidos e sem conhecimento; agora eles aprendem com o projeto a criar seus próprios filmes, a necessidade incontestável de ler e aprender a escrever com todos seus fundamentos e nuanças. E eles parecem felizes. Talvez sejam os olhos otimistas alipianos, talvez não.
Hugo Leonardo   

25 de nov de 2010

Quelques explications pour les lecteurs francophones


Quelques explications que nous devons, pour les amoureux de la langue française et de l'Oulipo. Nos travaux s'inspirent d'eux ainsi que d’autres artistes. 
L’ALiPo (Atelier d'Art et Littérature Potentielle) est un groupe de recherche sur des diverses formes d'art en général et de la littérature en particulier. Notre premier objectif (mais pas le seul) c'est de faire de cet artifice un outil pour les enseignants, mais non un pretexte pour des « choses pédagogiques ». Combiner les techniques instrumentales (les «méthodes») au goût esthétique sans les attributs de la thé(rr)o(r)ri(sm)e académique  qui fait peur aux professeurs de langue portugaise et de littérature, des pédagogues ou les gens de Lettres. L'art peut / doit être traitée comme amusant. Apprendre en faisant, libérer en libérant. «Amar se Aprende Amando» (Drummond), écrire/lire/connaître en écrivant/en lisant/en connaissant. Cette proposition, laquelle j'appelle la première étape du projet de recherche ALiPo (et que continue «ab ovo» et «ad eternam») est de rechercher et créer des techniques artisanales du tout et potentiellement utiles pour la salle de classe, principalement sur des critères économiques. Et, donc je dois dire, jusqu'à présent, des étudiants / des chercheurs de ce groupe , que je suis fier d'eux. 
Adilson Jardim (professeur coordinateur)
PS: pardonez-moi mon français.

18 de nov de 2010

Projeto "Nosso Cineminha" no ALiPo

Não custa reforçar a proposta. O ALiPo é um grupo de pesquisas nas mais variadas formas de arte em geral e literatura particularmente. Nosso primeiro objetivo (embora não nosso objetivo único) é levar essas artes para a sala de aula, fazer dela uma ferramenta pedagógica para os professores. Aliar o instrumental das técnicas (o fazer, os "métodos") ao sabor estético sem as amarras do te(rr)oricismo acadêmico que tanto assusta os professores de Língua Portuguesa e Redação, pedagogos ou gente de Letras. A Arte pode/deve ser tratada como DIVERSÃO. Aprender fazendo, libertar libertando. "Amar se aprende amando" (Drummond), escrever/ler/conhecer escrevendo/lendo/conhecendo. A proposta disso que chamo Primeira Etapa do Projeto de Pesquisas ALiPo (e que continua "ab ovo" e "ad eternam") é pesquisar e criar técnicas antes de tudo artesanais em sua maior parte e potencialmente viáveis para sala de aula, principalmente no critério econômico. O vídeo a seguir é o projeto desenvolvido por nossos alipianos Hugo Leonardo e Renilson Arcanjo, com que estão trabalhando técnicas básicas de animação em stop-motion com alunos de Ensino Fundamental nas escolas onde lecionam. Este material disponível no YouTube (clique no nome) é o resultado da oficina ministrada por nossos alunos/professores do ALiPo.

15 de nov de 2010

O ALiPo na SEFIPE (Primeira etapa dos trabalhos)

Na semana que passou (dias 11 e 12) foram realizadas as oficinas dos alunos do ALiPo na IX SEFIPE (Semana Faesc de Integração Pedagógica). Entre os muitos trabalhos concorridos nos três cursos da Faesc (Administração, Letras e Pedagogia), pode-se afirmar que o trabalhos dos nossos alipianos foram muito bem recebidos, considerando a pouca publicidade que fiz na Casa (ponto para alguns como Hugo Leonardo, que saíram de sala em sala, fazendo essa tarefa).

Dentro do objetivo maior do AliPo, que é pesquisar e levar a arte em geral e a literatura  contemporânea dentro das novas mídias para a sala de aula, como ferramenta democrática à disposição dos professores, a oficina de vídeo-literatura, organizada por Hugo e Renilson Arcanjo (11/11), com a valiosa ajuda de Evelyn Leite, João Paulo, Itamar e Maria Rozineide, foi um sucesso. Os alunos e professores inscritos animaram o poema "Erro de Português", de Oswald de Andrade, com o uso de máquina fotográfica, "movie maker", bonecos e papeis, na técnica do stop-motion.
A proposta é obviamente lúdica, além de estética e pedagógica, como mostram Hugo e o grupo. Todos os envolvidos podem participar, tornando-se leitores e co-criadores do texto a ser reinterpretado. A técnica é basicamente artesanal, e mesmo com o uso do computador é acessível, bastando um programa simples de editoração de filmes, como o Movie Maker, que a oficina mostrou como utilizar, descarregar as fotos no aparelho e editar. Acima, Hugo apresentando um vídeo. Ao lado, os alipianos Itamar (o "português" do poema de Oswald no barco) e João Paulo (segurando a "chuva"), auxiliado por nossas queridas alunas da Faesc, que ajudaram na confecção e movimento do "mar" para cada foto tirada pelo alipiano Hugo.
 A segunda oficina, ministrada por Evelyn, João Paulo e Rick ("O Aluno como Escritor") levou as atividades pesquisadas ou criadas nas reuniões do ALiPo: o conceito de "Cadernos Afetivos", atividade praticada por muitos artistas estrangeiros e brasileiros (ver aba "jogos"), com Evelyn, o "Texto-Manchete" (criação minha) com Rick, e a "Janela Secreta" (ver aba "jogos"), criação de Renilson Arcanjo.  
João Paulo montando com os alunos inscritos a Janela Secreta

  Evelyn (primeiro plano), mostra o conceito da "janela secreta" e as possibilidades pedagógicas inseridas na atividade. De camisa verde (segundo plano), Rick aplica o "texto-manchete", que consiste em apanhar a manchete de um jornal qualquer e tornar cada palavra dessa manchete a primeira de cada parágrafo de uma narrativa, cuja temática deva ser outra em relação à do texto que servia de título, ou mesmo propor um final diferente.
De um modo geral, consideramos muito positiva a participação do ALiPo na Sefipe, bem como o esforço de seus membros, que participaram com muita disposição. Não pararemos por aqui. São os primeiros passos, temos mais coisas para fazer. A segunda fase do Ateliê de Arte e Literatura Potencial trará muitas novidades, e espero podermos ir além das portas da Faesc para mostrar nosso trabalho. 
Agradecimentos especiais à presença de Neilton Limeira, professor mestre, do quadro de Letras da FOCCA-Olinda, e da TV Pernambuco, que cobriu o evento e esteve em uma de nossas oficinas. Abraços a todos e continuemos a acreditar no trabalho. Professor Adilson Jardim. 

27 de out de 2010

O ALiPo na SEFIPE


Nos dias 10, 11 e 12 de novembro ocorrerá a SEFIPE (Semana Faesc de Integração Pedagógica). O evento procura congregar as três graduações da Faculdade (Administração, Pedagogia e Letras) e atrair a comunidade externa às atividades realizadas nos cursos. O dia 10 será marcado pela participação dos professores e alunos de Língua e Literatura espanhola, na Feira Hispânica

O Alipo, dentro do projeto de pesquisa e extensão, fará sua estreia em público, com a montagem de duas oficinas organizadas pelos estudantes do Grupo, e sob orientação do professor Adilson Jardim, que apresentará, no dia 11, a palestra O que é o Ateliê de Arte e Literatura Potencial (ALiPo)? A Arte e a Escola na Economia da Cultura. Nela, tecerá algumas considerações sobre a nova posição da Escola e dos cursos de Letras frente à necessidade de integração interdisciplinar dos professores de Redação, Língua Portuguesa e Literatura entre si e as demais disciplinas, assim como diante das necessidades dos discentes num mundo heterogêneo e ilimitado em possibilidades.  Sem entrar aqui em muitos detalhes, e sem muitas promessas, em ano eleitoral.

Paralelamente, ocorrerá a primeira oficina, no dia 11: ALiPo na Sala de Aula: atividade animada de "vídeo-literatura" para Ensino Fundamental e Médio. Objetivos: lidar com o texto literário de forma inovadora, "dando asas" à imaginação do aluno intérprete, tornando-o co-autor da obra, numa oficina de animação com recursos acessíveis (e divertidos) a todos.
No dia 12, a oficina: ALiPo na sala de aula: o aluno como escritor - técnicas de escrita criativa (e divertida) para Ensino Fundamental e Médio. Objetivos: a apartir da apresentação e execução de técnicas de escrita aplicadas inicialmente por artistas, oferecer ferramentas criativas (e lúdicas) para auxiliar o trabalho dos professores e proporcionar ao público geral intressado na literatura, essa atividade como algo divertido antes de tudo. Fazer do leitor um escritor em potencial.

Bons trabalhos aos membros do ALiPo, e a todos os professores e alunos da Faesc que participarão da SEFIPE. Boas vindas ao público participante.
Professor Adilson Jardim.

12 de out de 2010

O Oulipo faz 50 anos

Montagem com os oulipianos, tendo Queneau no centro
O Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle - Ateliê de Literatura Potencial) está fazendo 50 anos em 2010. Pouco conhecidos por parte do público escolar e universitário e criticado por muitos, mas paradoxalmente muito frequentado por afixicionados e estudiosos de suas atividades nas reuniões na primeira quinta-feira de cada mês. Esses artistas se reuniram, em 1960, ao redor dos criadores do grupo, o poeta e escritor Raimond Quenau (Zazie dans le métro) e o matemático François Le Lionnais, que apostaram, em discordância com a ditadura volúvel do insconciente surrealista, na defesa do artista por trás da obra, como artífice que sua a camisa e os neurônios para estruturar sua imaginação em torno de uma forma bem acabada, sob o controle de restrições que sempre existiram não apenas nas artes, como também em toda escritura.

Nomes poderosos vieram se juntar ao Oulipo, como Georges Perec (La Vie Mode d'Emploi), Marcel Bénabou (Pourquoi je n'ai écrit aucun de mes livres) e Ítalo Calvino (O Castelo dos Destinos Cruzados), entre outros. Artistas que apostam deliberadamente em fórmulas previamente impostas à obra antes mesmo da primeira página, mas que lhes dão sentido, não servindo como pretexto, mas como mote ou tema, como um jogo de tarô a estruturar capítulos, situações e personagens no romance, certa vogal que some das páginas etc. Esta prática sempre foi comum em literatura, a exemplo da estrutura do soneto, de livros como o Jogo da Amarelinha, do argentino Júlio Cortázar, ou do Avalovara do brasileiro Osman Lins. Qual a diferença, então, do trabalho dos oulipianos para o de qualquer artista? É simplesmente evidenciar o jogo que toda escritura representa, o trabalho que envolve imaginação, mas também criação, invenção e memória. 

Se cada obra é fruto de um acaso da imaginação do artista ou "acidente feliz", o Oulipo "produz" esses acidentes e mostra ao público a cada quinta-feira e há 50 anos. Mas essas pseudo-amarras da criação são desafios que somente os melhores artistas sabem retirar de sua recalcitrante frieza de signo morto, jogado à mesa  e oferecido como produto, e torná-lo possibilidades de uma escritura que vai além de sua superfície polida. Possibilidades, "potencialidades" que empolgaram muita gente e fizeram surgir outros grupos potenciais, envolvendo artes plásticas, Revistas em Quadrinhos,  Matemática, linguagem radiofônica, História etc. Aqui no Brasil, chegou a ser criado um Oblipo (Oficina Brasileira de Literatura Potencial), na UFRJ. 

Inspirado no Oulipo é que surgiu, neste ano, nosso Alipo, por enquanto como um grupo de pesquisas ,cujo objetivo é estudar as potencialidades dos jogos criativos em diversas direções (Livro de Artista, Cadernos Gráficos, poemas visuais, livros alterados etc. etc.) aplicadas especificamente na sala de aula, como processo estético e pedagógico. Nossos pesquisadores criam e recriam aquilo que pesquisarmos do Oulipo e dos demais, em  jogos que se revestem regras (restrições) gramaticais, mas não apenas isso, e que aliam à criatividade o próprio amadurecimento do aluno na construção de sua individuação como criador dos processos em sala de aula. Em outras palavras: como "artista".   

2 de out de 2010

Oubapo (Oficina de Historias em Quadrinhos Potencial)

Por solicitação minha, nossa correspondente do Rio de Janeiro, Maria Clara Carneiro (ver aba correspondente ao grupo) nos cedeu gentilmente um artigo do seu blog indecidíveis sobre um estudo de fôlego que está realizando sobre Histórias em quadrinhos, enquanto busca o doutorado. Aqui, publicamos apenas alguns trechos desse excelente material, que o leitor do Alipo poderá encontrar na íntegra no blog de Maria Clara.

As histórias em quadrinhos e o OuBaPo:
pequeno panorama sobre o gênero no Brasil e na França[1]

Maria Clara da Silva Ramos Carneiro
(Mestre em Literatura Francesa – UFRJ)

Na década de 1990, autores franceses de histórias em quadrinhos criam o grupo OuBaPo, que se propõe a refletir sobre as histórias em quadrinhos (bande dessinée) em si. Esse grupo passa aplicar restrições em seus desenhos e textos, seguindo o modelo de restrições literárias um tanto inusitadas utilizadas por autores como Georges Perec e Ítalo Calvino em décadas anteriores (o célebre grupo OuLiPo). Jean Cristophe Menu, Killoffer, Etienne Lécroart, entre outros quadrinistas, passam a experimentar o campo da também chamada “arte sequencial”, ao mesmo tempo em que discutem o próprio status de arte menor de seus trabalhos. A partir do viés de teorias literárias, pretendo apresentar os questionamentos levantados por esses autores.
A França tem uma longa história, desde o belga Tintin e seu herói nacional, o Astérix. Desde os anos 1950, há um padrão de seus livros: grandes, capa dura, a cores, de 48 páginas, normalmente. O 48CC. Os quadrinhos dos jornais, em preto e branco, são a tira barata e apressada em contraponto com os “álbuns” luxuosos, as BDs. A cor é marca de nobreza entre esses. Diferente dos fanzines americanos à la Crumb &Cia., no final dos anos 1960, impressos e distribuídos pelos mesmos que os faziam. Diferente, também, do traço do italiano Hugo Pratt, também, que, no mesmo período, adquiria sua maturidade artística com seu aventureiro Corto Maltese. Diferente ainda mais dos mangás, tradição antiga em P&B. Quando a banda desenhada ganha sua “emancipação”, seu reconhecimento como adulta, os livros também mudam de formato. Livros enormes que nem cabem nas prateleiras padronizadas para quadrinhos, hoje. Pois, nos anos 1990, os editores especializados em quadrinhos adotaram o modelo do 48CC para todas as obras, assim como o modelo de conteúdo. Histórias com heróis, seriadas, dos mesmos gêneros de sempre: “medievo, policiais, velho-oeste, ficção científica, etc.”v. Jean-Christophe Menu, editor militante da Association, afirma que, nos anos 2000, a norma absoluta que se impõe aos quadrinhos apresentados nos mais recentes festivais é o “48CC/HF/KK”, sendo HF o gênero que predomina nas novas produções (fantasia de herói) e KK (caca) significa o que ele pensa da qualidade dessas obras e dessas imposições de fôrmas.
Assim, quando esses artistas se reúnem para publicarem, estabelecem escolhas editoriais para fugirem do padrão, em busca de uma criação constante, reinventando mesmo o livro como objeto. E preferem a escolha do preto e branco por uma valorização do traço e contradizer a idéia de nobreza das cores. Uma incessante recherche pela inovação e contestação dos poderes (leia-se padrões editoriais) vigentes. Passam a trilhar o caminho do inusitado. Eles se associam, também, aos ideais e estratégias surrealistas. Criações coletivas, a introdução sistemática do sonho, são alguns dos ensaios de produção desses artistas. Em seu livro plate—bandes (algo como “tiras medíocres, de 2005), Menu responde raivosamente a jornalistas que criticaram a sua atitude – acompanhada de linguagem extremamente agressiva, ele mesmo concorda – de recusar a autorizar a publicação de qualquer matéria sobre os artistas da Association. A mídia especializada em quadrinhos, segundo ele, relegou essa arte a um gueto de especialistas, que imita a linguagem de uma revista de fofocas para falar de seus artistas. Em seu livro, ele comenta como a Association consegue ser um dos grupos editoriais que mais vende – vide sucesso da obra de Marjane Satrapi, que virou também filme de sucesso premiado em Cannes (Persépolis).
É nesse contexto de busca constante de afirmação dos quadrinhos como uma arte como qualquer outra e da inovação de sua linguagem que esses autores criam o grupo OuBaPo. Como, anteriormente, se posicionaram como herdeiros do surrealismo, o OuBaPo também se inspira em uma outra corrente artística, o OuLiPo.
O OUvroir de LIttérature POtentielle (OuLiPo), que poderíamos traduzir como uma oficina de literatura em potencial, inaugurado por Raymond Queneau e François Le Lionnais, o grupo contou também com Georges Perec e o italiano Italo Calvino. As bases do OuLiPo foram traçadas na década de 1960, na França, quando um grupo de escritores passa a buscar na linguagem matemática um novo meio de fazer literatura. Em um século que já nasceu sem a dependência de métricas e rimas, onde de tudo já foi feito, eles constroem novas medidas num exercício de compor algo diferente. Inventam novos jogos de se brincar com a linguagem, importando conceitos matemáticos para a literatura. Eles resolvem voltar a criar restrições para produzir uma nova vanguarda. Essas restrições foram a base de muitas publicações, tais como a célebre La Disparition, de Perec, um romance em francês escrito sem a letra “e” (a vogal mais presente na língua francesa).
Os oulipiens ainda são seguidos não só por novas gerações de escritores, mas também foram adaptados por diversos domínios artísticos, gerando uma linhagem de “oficinas” reunidas pelas enciclopédias sob o nome de OuXPo – qualquer arte que possa ter a sua criação elevada a uma potência máxima criativa, matematicamente falando. É nesse panorama criativo em que se inserem os oubapianos.
Em sua primeira publicação, reunindo as experiências de vários de seus artistas, a OuPus1 (trocadilho com a palavra ouvroir + opus) apresenta textos teóricos, também, sobre o OuLiPo e o próprio OuBaPo. Menu escreve, em seu ensaio “Ouvre-Boîte-Po” (abre-latas-po: um abridor de latas em potencial), que em meio a tantas artes potenciais, a história em quadrinhos, que na época celebravam seu centenário, ainda é uma arte em potencial. O cinema-de-autor ou o cinema-ensaio já são lugares comuns. Mas é difícil encontrar ensaios sobre quadrinhos, e a crítica se reserva geralmente a revistas especializadas. Os quadrinhos, geralmente, são relacionados a entretenimentovi.
A diferença entre os oubapianos e o quadrinho experimental em geral é que o grupo francês busca aplicar restrições em que alteram ou suprimem elementos que geralmente são enumerados como “constitutivos de sua linguagem”vii. Esgotar a própria definição geralmente aplicada a “histórias em quadrinhos”. Para isso, eles também teorizam sobre os limites entre as linguagens que a compõem. Outro autor oubapiano, Thierry Groensteen (também no OuPus 1 de 2005). enumera duas similitudes entre quadrinhos e literatura.

Primo, história em quadrinhos e literatura têm em comum o fato de veicular ou de produzir um discurso. Secundo, a literatura é feita exclusivamente de palavras e sinais tipográficos; o mesmo léxico e os mesmos sinais entram freqüentemente, mas não obrigatoriamente, na composição das histórias em quadrinhos, onde eles são confrontados com motivos gráficos que, esses sim, são estranhos ao repertório literário. Na história em quadrinhos, o texto é um elemento facultativo e, quando está presente, é de importância variável.

Logo em seguida, ele cita as reflexões do pesquisador Hubert Damisch: o cansaço do semiólogo em tentar ler um sistema de signos em uma pintura demonstra que essa arte não se lê pelas suas linhas, mas por intermédio de seus nós, descrevendo, assim, a importância da textura que também compõe o quadro. Da mesma forma, os quadrinhos deveriam ser lidos pelos nós que o compõe, as relações que se fazem ou desfazem entre imagem e texto. Assim, ele define as relações entre os componentes de uma mesma imagem como o nível morfológico dos quadrinhos, e os quadros em seqüência comporiam a sua sintaxe.
Uma segunda consideração que gostaria de desenvolver, parte justamente deste pressuposto de Groesteen. A denominação implica limitação. A linguagem sobre a qual costumamos empregar a etiqueta de histórias em quadrinhos foge sistematicamente de seu título. E os estudos sobre quadrinhos tomam como ponto de partida, em geral, o aspecto visual da obra. É difícil, portanto, encontrar um estudo que aborde exatamente o nó entre as duas linguagens. Como constataram inclusive pesquisadores do NPHQ-USPviii, o núcleo de pesquisa em quadrinhos da Universidade de São Paulo, a produção acadêmica sobre quadrinhos, no Brasil, mesmo que freqüentes, é de aceitação ainda dificultada. Além disso, a maior parte dos estudos envolvendo quadrinhos ainda trata de sua potencialidade no campo da educação, de seu uso em sala de aula. Ou dos quadrinhos literários, aqueles que adaptam uma obra. No entanto, trata-se de uma expressão única, com inúmeras possibilidades de realizar obras poéticas, seja pelo desenho, pelo texto ou pelo seu conjunto.
Diante deste panorama, pretendo desenvolver uma pesquisa que dê conta dos fatores que fazem deste ofício uma arte e de sua proximidade – não dependência – do fazer literário. Um estudo comparativo, talvez, entre oulipianos e oubapianos, levando em conta, e destacando, suas diferenças. Descrever e observar esses autores que fazem e teorizam suas obras – os autores da Association, mas sem desviar o olhar de artistas brasileiros que se aproximam destes no que diz respeito à inovação, mesmo na ausência de um grupo de autores-teóricos do caso francês. Esta pesquisa, que se esboça aqui apenas como um projeto, carece ainda de um recorte de corpus e um melhor delinear das hipóteses, que pretendo operar a partir de leituras dos próprios associés e do suporte teórico da semiologia barthesiana.

Referências bibliográficas

BRAGA, Flavio & PATATI, Carlos. Almanaque dos quadrinhos. São Paulo: Ediouro, 2006.
CRUMB, Robert et al. Zap Comix. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2005. Trad. Alexandre Matias, Claudio Carina. 2ª ed.
MENU, Jean Christophe. Plates-bandes. Paris: L’Association, 2005. Coleção éprouvette.
Ouvroir de Bande Dessinée Potentielle. OuPus 1. L’Association, 1997.
Ouvroir de Bande Dessinée Potentielle. OuPus 2. L’Association, março de 2003.
TRONDHEIM, Lewis. Désoeuvré. Paris: L’Association, janeiro de 2005. Coleção éprouvette.
VERGUEIRO, Waldomiro & DOS SANTOS, Elísio. A pesquisa sobre histórias em quadrinhos na Universidade de São Paulo: análise da produção de 1972 a 2005. São Paulo: UNIrevista - Vol. 1, n° 3: (julho 2006).
WIKIPEDIA. In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Quadrinhos.


[1] Texto originalmente apresentado no III Simpósio de Literatura Contemporânea na Faculdade de Letras/UFRJ

13 de set de 2010

Retomada dos trabalhos

Após uma indigesta parada (prefiro chamar de "pitistope") nas atividades do Primeiro Semestre, voltamos a postar no blog do Alipo. No mês de julho, Hugo Leonardo (nosso leometáfora) esteve em S. José do Egito e Tabira, representando o Alipo, com direito a crachá (clique na imagem para ampliá-la)  confeccionado por ele, registrando as atividades dos poetas populares dessas cidades. Em breve, novidades aqui sobre essa visita, com material coletado pelo Hugo. 
No mês de agosto, começamos uma oficina de atividades literárias de inspiração oulipiana, a partir das quais estamos nos lançando nas nossas próprias criações conjuntas. O objetivo é desenvolvermos uma série delas, que terão caráter pedagógico e poderão ser aplicadas em sala de aula, para alunos de várias faixas etárias. Os resultados serão apresentados no blog nas próximas postagens. Abaixo, alguns alunos/pesquisadores do Alipo na Biblioteca da Faesc, produzindo uma das atividades. Da esquerda para a direita: Hugo, Jefton, Rick, João Paulo, Evelyn e Beronice. O autor que vos comunica era o fotográfo. 
Está se aproximando o Dia do Voluntariado e teremos novidades com Gisele e Hugo, com uma oficina que estão preparando para crianças de uma comunidade em Escada - PE, lar de nosso Alipo.  O nome é "Alipozinho", e os resultados dessa atividade, esperamos que positivos, serão divulgado no blog.
As próximas atividades serão logo anunciadas dentro do calendário de atividades do Grupo. Muitas promessas, verdade, mas não sou político, somente professor com muita vontade e orgulho dessa turma. Até lá.  


27 de jun de 2010

Exercícios de Estilo

Poema Poetrix (João Paulo Araújo)
No terceiro encontro do ALiPo, Evelyn e Beronice apresentaram um movimento legitimamente brasileiro, para o qual elas deverão preparar um pequeno artigo para o blog, o Poetrix. Por enquanto, aparentemente a autoridade para discutir sobre o poema abaixo é das meninas,  mas a julgar pelo link do movimeno que se encontra neste blog, nada impede dos pesquisadores iniciarem pesquisas próprias para expandirem suas consciências e naturalmente darem vida ao texto de João Paulo, através de comentários.  

OLÁ PESSOAS!!!

DEPOIS DO NOSSO ÚLTIMO ENCONTRO ARRISQUIE PRODUZIR UM POETRIX, DEPOIS ME DIGAM O QUE ACHARAM. LÁ VAI:

ALIPO

Ateliê literário
Potencial artilário
a chama do literóide.

A música e o efeito de "maravilhamento" no vídeo (Adilson Jardim)

Em época de Copa do Mundo, e enquanto o Grupo está em recesso nas aulas, resolvi postar um artigo com cara de crônica aqui no blog sobre o videoclipe, esse efeito mágico que a música provoca na gente, com o auxílio das imagens (ou vice-versa, enfim). Abaixo, o clipe "Waka Waka (this time for Africa)", com a cantora colombiana Shakira, mantem um forte apelo publicitário, para encantar multidões com a magia da bola, as lágrimas dos jogadores, os lances dramáticos, a alegria da vitória. Mas o que parece um rótulo de publicidade, para muitos distante de um objeto artístico, está muito mais próxima do Estético do que parece. Se o estético é uma forma de sedução pela linguagem, um modo de apresentar e não um valor em si mesmo,  que determina o que é uma obra de arte - afinal, os valores mudam de uma época para outra e mesmo de um grupo para outro -, nesse caso um comercial que apele para a emoção em doses bem administradas para o público garante sem dúvida seu efeito estético. Voltando para a música, note-se a letra da canção repleta de palavras de luta, metáforas bélicas como "soldado", "linha de frente". O diferencial é que as imagens "suavisam" o discurso quando mostra jogadores exultantes, torcida sorrindo e a cantora festejando o evento da Copa com muita gente alegre dançando. Isso é estética, é um modo de fazer o objeto a ser contemplado, um efeito mais ou menos previsto pelo autor (nesse caso a cantora, os coreógrafos, o diretor do vídeo etc.),  e isso aproxima sem dúvida um videoclipe de um romance, um poema, uma tela. Ah, e  depois de assistir, dá uma vontade danada de sair e jogar bola, mesmo sabendo que sou ruim de bola.



Em tempo: aqui vocês podem encontrar a letra da música e a tradução. 

Exercícios de estilo

Vamos denominar estas postagens de criação dos membros do ALiPo de "Exercícios de Estilo", para retomar a expressão que por aí é mal tratada e torná-la um ato de solidariedade com a língua e a liberdade que o autor precisa.
Este poema de Hugo Leonardo, além de revelar a sensibilidade de seu autor, oculta um elemento que desafiamos o leitor a descobrir. O que "falta" no texto?  

Falta
(Leometáfora)

Já na hora tardia, vou corrosivo, marchando calado.
Há dias, a dor lacrimosa, pinta obscuro o mofado.
Como outrora, fugi para o mundo. Lá fora um jardim incolor.
Aqui, n'alma, um travo amargo compondo o final d'uma flor.

Ah foi um sonho tão bom, o passado.
Mas loucura afinal, qual surgir culpado.
No odor colorido dos tantos sorrisos
Vaga a marcha pulsando os talhos incisos.

Antigo, antigo.
Falta dolorosa, fria.
Antigo, agora antigo.
Coração a costurar nostalgia.

Paro! Um chamado! Ouvi uma voz procurando, roubando a razão num "por fim".
Grito! Foi a mim? Inclino aflito, único suspiro, num minúsculo sim.

Já as bocas pasmarão confundidas.
Lá os camaradas não voltarão a cantar.
Cá as portas abrirão aturdidas.
Numa falta quando não mais voltar.

A palavra partiu o significado.
Amor, um ópio tão mal tragado.
Contudo fica num ósculo, tal faltar sujo, incontido.
Contudo ficam aqui, findos anos mal vividos.

19 de jun de 2010

A Gênese

O início do início do início. Isto não é um grupo de pesquisas. É arte em composição e disposição. Gestação. Títulos enjoam. Cabeças foram feitas para tensar. Tensemos tessituras/tecituras palavras palavras palavras. Jogos. A carne exposta das letras. Isto não é um jogo. Isto não é composição, é reposição, disposição, vontade.  Imagens. Sons. Estamos aqui para arregaçar as mangas sujas da literatura, de todas as artes plásticas, práticas, fáticas. É um grupo de pesquisas. Acadêmicas. Ideias para sermos úteis (a quem?), uterinos, ulteriores, a quem possa interessar. A nós mesmos. A todo mundo (mas mundo é muita gente). Perseveremos. 

Somos estudantes de Letras e Pedagogia, mas somos amantes das artes, por enquanto namorados, ou ainda menos: flertamos com elas, distantes, timidamente. Rótulos não convêm, não somos de Letras, somos das letras; não somos de Pedagogia, somos as crianças levadas pelas mãos da Curiosidade.

O ALiPo é pura arte em estado de potência. Buscamos saber o que é a arte e a literatura potenciais. Buscamos mais: criar junto com esses fulanos que andam por aí revelando seus segredos, em todas as instâncias; da divulgação dos nossos grandes inspiradores, o OuLipo (Ouvroir de Littérature Potentielle) às manifestações "populares" (conceito rótulo de rótulo), tais como o cordel e música de câmara, o ballet e o repente, o mural e a pichação, o cinema e as sombras chinesas. Tirar as artes do nicho e os artistas dos púpitos, fazermo-nos artistas e levarmos arte para o campus, para a sala de aula, para nossas vidas.  

Após o terceiro encontro de nosso grupo, aqui está nosso espaço.Começamos. Comecemos.