2 de out de 2010

Oubapo (Oficina de Historias em Quadrinhos Potencial)

Por solicitação minha, nossa correspondente do Rio de Janeiro, Maria Clara Carneiro (ver aba correspondente ao grupo) nos cedeu gentilmente um artigo do seu blog indecidíveis sobre um estudo de fôlego que está realizando sobre Histórias em quadrinhos, enquanto busca o doutorado. Aqui, publicamos apenas alguns trechos desse excelente material, que o leitor do Alipo poderá encontrar na íntegra no blog de Maria Clara.

As histórias em quadrinhos e o OuBaPo:
pequeno panorama sobre o gênero no Brasil e na França[1]

Maria Clara da Silva Ramos Carneiro
(Mestre em Literatura Francesa – UFRJ)

Na década de 1990, autores franceses de histórias em quadrinhos criam o grupo OuBaPo, que se propõe a refletir sobre as histórias em quadrinhos (bande dessinée) em si. Esse grupo passa aplicar restrições em seus desenhos e textos, seguindo o modelo de restrições literárias um tanto inusitadas utilizadas por autores como Georges Perec e Ítalo Calvino em décadas anteriores (o célebre grupo OuLiPo). Jean Cristophe Menu, Killoffer, Etienne Lécroart, entre outros quadrinistas, passam a experimentar o campo da também chamada “arte sequencial”, ao mesmo tempo em que discutem o próprio status de arte menor de seus trabalhos. A partir do viés de teorias literárias, pretendo apresentar os questionamentos levantados por esses autores.
A França tem uma longa história, desde o belga Tintin e seu herói nacional, o Astérix. Desde os anos 1950, há um padrão de seus livros: grandes, capa dura, a cores, de 48 páginas, normalmente. O 48CC. Os quadrinhos dos jornais, em preto e branco, são a tira barata e apressada em contraponto com os “álbuns” luxuosos, as BDs. A cor é marca de nobreza entre esses. Diferente dos fanzines americanos à la Crumb &Cia., no final dos anos 1960, impressos e distribuídos pelos mesmos que os faziam. Diferente, também, do traço do italiano Hugo Pratt, também, que, no mesmo período, adquiria sua maturidade artística com seu aventureiro Corto Maltese. Diferente ainda mais dos mangás, tradição antiga em P&B. Quando a banda desenhada ganha sua “emancipação”, seu reconhecimento como adulta, os livros também mudam de formato. Livros enormes que nem cabem nas prateleiras padronizadas para quadrinhos, hoje. Pois, nos anos 1990, os editores especializados em quadrinhos adotaram o modelo do 48CC para todas as obras, assim como o modelo de conteúdo. Histórias com heróis, seriadas, dos mesmos gêneros de sempre: “medievo, policiais, velho-oeste, ficção científica, etc.”v. Jean-Christophe Menu, editor militante da Association, afirma que, nos anos 2000, a norma absoluta que se impõe aos quadrinhos apresentados nos mais recentes festivais é o “48CC/HF/KK”, sendo HF o gênero que predomina nas novas produções (fantasia de herói) e KK (caca) significa o que ele pensa da qualidade dessas obras e dessas imposições de fôrmas.
Assim, quando esses artistas se reúnem para publicarem, estabelecem escolhas editoriais para fugirem do padrão, em busca de uma criação constante, reinventando mesmo o livro como objeto. E preferem a escolha do preto e branco por uma valorização do traço e contradizer a idéia de nobreza das cores. Uma incessante recherche pela inovação e contestação dos poderes (leia-se padrões editoriais) vigentes. Passam a trilhar o caminho do inusitado. Eles se associam, também, aos ideais e estratégias surrealistas. Criações coletivas, a introdução sistemática do sonho, são alguns dos ensaios de produção desses artistas. Em seu livro plate—bandes (algo como “tiras medíocres, de 2005), Menu responde raivosamente a jornalistas que criticaram a sua atitude – acompanhada de linguagem extremamente agressiva, ele mesmo concorda – de recusar a autorizar a publicação de qualquer matéria sobre os artistas da Association. A mídia especializada em quadrinhos, segundo ele, relegou essa arte a um gueto de especialistas, que imita a linguagem de uma revista de fofocas para falar de seus artistas. Em seu livro, ele comenta como a Association consegue ser um dos grupos editoriais que mais vende – vide sucesso da obra de Marjane Satrapi, que virou também filme de sucesso premiado em Cannes (Persépolis).
É nesse contexto de busca constante de afirmação dos quadrinhos como uma arte como qualquer outra e da inovação de sua linguagem que esses autores criam o grupo OuBaPo. Como, anteriormente, se posicionaram como herdeiros do surrealismo, o OuBaPo também se inspira em uma outra corrente artística, o OuLiPo.
O OUvroir de LIttérature POtentielle (OuLiPo), que poderíamos traduzir como uma oficina de literatura em potencial, inaugurado por Raymond Queneau e François Le Lionnais, o grupo contou também com Georges Perec e o italiano Italo Calvino. As bases do OuLiPo foram traçadas na década de 1960, na França, quando um grupo de escritores passa a buscar na linguagem matemática um novo meio de fazer literatura. Em um século que já nasceu sem a dependência de métricas e rimas, onde de tudo já foi feito, eles constroem novas medidas num exercício de compor algo diferente. Inventam novos jogos de se brincar com a linguagem, importando conceitos matemáticos para a literatura. Eles resolvem voltar a criar restrições para produzir uma nova vanguarda. Essas restrições foram a base de muitas publicações, tais como a célebre La Disparition, de Perec, um romance em francês escrito sem a letra “e” (a vogal mais presente na língua francesa).
Os oulipiens ainda são seguidos não só por novas gerações de escritores, mas também foram adaptados por diversos domínios artísticos, gerando uma linhagem de “oficinas” reunidas pelas enciclopédias sob o nome de OuXPo – qualquer arte que possa ter a sua criação elevada a uma potência máxima criativa, matematicamente falando. É nesse panorama criativo em que se inserem os oubapianos.
Em sua primeira publicação, reunindo as experiências de vários de seus artistas, a OuPus1 (trocadilho com a palavra ouvroir + opus) apresenta textos teóricos, também, sobre o OuLiPo e o próprio OuBaPo. Menu escreve, em seu ensaio “Ouvre-Boîte-Po” (abre-latas-po: um abridor de latas em potencial), que em meio a tantas artes potenciais, a história em quadrinhos, que na época celebravam seu centenário, ainda é uma arte em potencial. O cinema-de-autor ou o cinema-ensaio já são lugares comuns. Mas é difícil encontrar ensaios sobre quadrinhos, e a crítica se reserva geralmente a revistas especializadas. Os quadrinhos, geralmente, são relacionados a entretenimentovi.
A diferença entre os oubapianos e o quadrinho experimental em geral é que o grupo francês busca aplicar restrições em que alteram ou suprimem elementos que geralmente são enumerados como “constitutivos de sua linguagem”vii. Esgotar a própria definição geralmente aplicada a “histórias em quadrinhos”. Para isso, eles também teorizam sobre os limites entre as linguagens que a compõem. Outro autor oubapiano, Thierry Groensteen (também no OuPus 1 de 2005). enumera duas similitudes entre quadrinhos e literatura.

Primo, história em quadrinhos e literatura têm em comum o fato de veicular ou de produzir um discurso. Secundo, a literatura é feita exclusivamente de palavras e sinais tipográficos; o mesmo léxico e os mesmos sinais entram freqüentemente, mas não obrigatoriamente, na composição das histórias em quadrinhos, onde eles são confrontados com motivos gráficos que, esses sim, são estranhos ao repertório literário. Na história em quadrinhos, o texto é um elemento facultativo e, quando está presente, é de importância variável.

Logo em seguida, ele cita as reflexões do pesquisador Hubert Damisch: o cansaço do semiólogo em tentar ler um sistema de signos em uma pintura demonstra que essa arte não se lê pelas suas linhas, mas por intermédio de seus nós, descrevendo, assim, a importância da textura que também compõe o quadro. Da mesma forma, os quadrinhos deveriam ser lidos pelos nós que o compõe, as relações que se fazem ou desfazem entre imagem e texto. Assim, ele define as relações entre os componentes de uma mesma imagem como o nível morfológico dos quadrinhos, e os quadros em seqüência comporiam a sua sintaxe.
Uma segunda consideração que gostaria de desenvolver, parte justamente deste pressuposto de Groesteen. A denominação implica limitação. A linguagem sobre a qual costumamos empregar a etiqueta de histórias em quadrinhos foge sistematicamente de seu título. E os estudos sobre quadrinhos tomam como ponto de partida, em geral, o aspecto visual da obra. É difícil, portanto, encontrar um estudo que aborde exatamente o nó entre as duas linguagens. Como constataram inclusive pesquisadores do NPHQ-USPviii, o núcleo de pesquisa em quadrinhos da Universidade de São Paulo, a produção acadêmica sobre quadrinhos, no Brasil, mesmo que freqüentes, é de aceitação ainda dificultada. Além disso, a maior parte dos estudos envolvendo quadrinhos ainda trata de sua potencialidade no campo da educação, de seu uso em sala de aula. Ou dos quadrinhos literários, aqueles que adaptam uma obra. No entanto, trata-se de uma expressão única, com inúmeras possibilidades de realizar obras poéticas, seja pelo desenho, pelo texto ou pelo seu conjunto.
Diante deste panorama, pretendo desenvolver uma pesquisa que dê conta dos fatores que fazem deste ofício uma arte e de sua proximidade – não dependência – do fazer literário. Um estudo comparativo, talvez, entre oulipianos e oubapianos, levando em conta, e destacando, suas diferenças. Descrever e observar esses autores que fazem e teorizam suas obras – os autores da Association, mas sem desviar o olhar de artistas brasileiros que se aproximam destes no que diz respeito à inovação, mesmo na ausência de um grupo de autores-teóricos do caso francês. Esta pesquisa, que se esboça aqui apenas como um projeto, carece ainda de um recorte de corpus e um melhor delinear das hipóteses, que pretendo operar a partir de leituras dos próprios associés e do suporte teórico da semiologia barthesiana.

Referências bibliográficas

BRAGA, Flavio & PATATI, Carlos. Almanaque dos quadrinhos. São Paulo: Ediouro, 2006.
CRUMB, Robert et al. Zap Comix. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2005. Trad. Alexandre Matias, Claudio Carina. 2ª ed.
MENU, Jean Christophe. Plates-bandes. Paris: L’Association, 2005. Coleção éprouvette.
Ouvroir de Bande Dessinée Potentielle. OuPus 1. L’Association, 1997.
Ouvroir de Bande Dessinée Potentielle. OuPus 2. L’Association, março de 2003.
TRONDHEIM, Lewis. Désoeuvré. Paris: L’Association, janeiro de 2005. Coleção éprouvette.
VERGUEIRO, Waldomiro & DOS SANTOS, Elísio. A pesquisa sobre histórias em quadrinhos na Universidade de São Paulo: análise da produção de 1972 a 2005. São Paulo: UNIrevista - Vol. 1, n° 3: (julho 2006).
WIKIPEDIA. In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Quadrinhos.


[1] Texto originalmente apresentado no III Simpósio de Literatura Contemporânea na Faculdade de Letras/UFRJ

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